A Operação de Mineração de Bitcoin Está se Tornando uma Aposta no Setor de Energia

by VT Markets
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Aug 11, 2026

Sempre houve um motivo simples para comprar ações de uma mineradora em vez de comprar o próprio bitcoin. As mineradoras oferecem uma exposição “alavancada” à moeda (ou seja, os resultados podem variar mais do que o preço do bitcoin). Os custos são, em grande parte, fixos, enquanto a receita sobe e desce com o preço do bitcoin, o que costuma provocar oscilações maiores nas ações.

Essa era a aposta: bitcoin, com mais potencial de alta e mais risco.

Essa dinâmica começa a mudar. O bitcoin continua no centro dessas empresas, mas algumas mineradoras passaram a avaliar se o ativo mais valioso não são as moedas que produzem, e sim a infraestrutura de energia por trás da operação.

Minerar ainda dá retorno. Mas outra coisa paga mais

O hashprice (quanto uma mineradora ganha por unidade de poder de computação) ficou pressionado desde o halving (evento que reduz pela metade a recompensa paga em bitcoin por bloco). O hashrate da rede (a força total de processamento) segue subindo, então cada máquina fica com uma fatia menor, e a recompensa por bloco agora é metade do que era. Uma operação bem administrada, com energia barata, ainda pode ser lucrativa, mas com margem menor do que há dois anos.

Ao mesmo tempo, empresas de IA apareceram procurando eletricidade — e pagam de outro jeito. Minerar pode render, no melhor cenário, algumas centenas de milhares de dólares por megawatt (medida de potência; aqui, quanta energia o site consegue consumir) ao ano, com preço ditado pelo mercado, mudando diariamente e tendendo a cair ao longo do tempo. Alugar esse mesmo megawatt para um cliente de IA pode render US$ 1 milhão ou mais por ano, com valor fixado em contrato por 10 anos ou mais.

Isso não é mudança de história. É conta. Se você tem energia e alguém oferece três vezes mais em um contrato de uma década, vale conversar.

Por que energia virou o ativo escasso

Aqui a tese fica menos simples, e muitos anúncios exageram o que de fato está acontecendo.

Um site de mineração costuma ser um galpão simples. As máquinas aguentam energia com oscilações, pouca redundância (sem “plano B” de energia), poeira e calor, e podem ser desligadas em segundos quando a rede elétrica precisa da carga de volta. Foi assim que mineradoras conseguiram energia barata: elas consumiam eletricidade que ninguém queria.

Computação de IA não funciona assim. Ela precisa de energia estável, com reserva (geradores e sistemas de proteção), porque um treinamento que perde energia pode jogar fora dias de trabalho. Também precisa de resfriamento líquido (sistema de refrigeração com líquido, mais eficiente para equipamentos muito potentes). E os clientes querem promessa de disponibilidade (“uptime”, ou tempo no ar) com penalidades financeiras.

Por isso, o galpão em si vale pouco para IA. O que vale é a conexão com a rede: a subestação (instalação que recebe e distribui energia), os cabos e o lugar na fila para conseguir essa ligação. Em muitos lugares, essa fila demora anos. Ter um local já conectado e puxando muita energia é o ativo realmente raro — e não dá para criar isso rapidamente.

Isso significa que converter um site de mineração se parece mais com derrubar e construir algo novo. O custo por megawatt pode ser cerca de dez vezes o do galpão original. Por isso a mudança é real, e também por que leva anos, não trimestres.

Sem o rótulo de “mineradora de bitcoin”, existem três negócios diferentes aqui.

  • O “locador”. Você constrói a estrutura, entrega energia, e o cliente traz os próprios computadores. Você recebe aluguel por 10 a 15 anos. Dá menos receita por megawatt do que a alternativa, mas é contrato de longo prazo e previsível. É um negócio parecido com imóveis e precisa ser avaliado como tal.
  • O operador. Você compra os computadores e vende capacidade de computação por hora. Muito mais receita por megawatt e muito mais risco. Você fica com chips caros que desvalorizam rápido e precisa mantê-los sempre ocupados.
  • Ainda mineradora. O dinheiro vem do bitcoin. IA é um plano, um estudo de local ou um primeiro contrato pequeno. Na prática, o que se vende ao acionista é a chance de virar um dos dois modelos acima.

“Mineradoras de bitcoin” já não são uma aposta só

O termo “mineradora de bitcoin” agora cobre modelos bem diferentes. Algumas empresas continuam sendo, principalmente, uma forma alavancada de apostar no bitcoin, enquanto outras tentam usar seus ativos de energia para entrar em infraestrutura de IA. Cada modelo tem um perfil de crescimento, necessidade de capital (dinheiro para investir) e forma de avaliação diferentes.

EmpresaO que o investidor está comprandoEvidênciaO que precisa acontecer a seguir
IRENTransição para infraestrutura de IAExpansão de capacidade de GPU e ambição de “nuvem” de IA (serviço de computação online)Receita com IA precisa ganhar peso
RiotAtivos de energia e potencial futuro de data centerSites grandes e conexões com a rede elétricaTransformar vantagem de infraestrutura em receita com contratos
MARAExposição ao bitcoin com opção de IAGrande posição em BTC e escala de mineraçãoProvar que parcerias em IA geram retorno
CleanSparkMineração de bitcoin eficienteBoa execução operacional e energia de baixo custoMostrar como os ativos atuais podem atender demanda de IA

CleanSpark

CLSK tem sido uma das mineradoras mais disciplinadas, e sua estratégia de IA começa a sair do papel. A empresa vem ampliando seu portfólio de energia e terrenos, preparando a infraestrutura para IA e HPC (computação de alto desempenho, usada em tarefas pesadas). Ela destaca avanços em desenvolvimento de sites, locação e expansão de energia, incluindo capacidade adicional aprovada pela ERCOT e ativos prontos para IA/HPC (ERCOT é o operador do sistema elétrico do Texas, que autoriza e coordena conexões e uso de energia).

A vantagem é parecida com a de outras mineradoras que migram para infraestrutura: acesso a energia e locais que novos desenvolvedores de data center levariam anos para conseguir. A CleanSpark também avançou para transformar esses ativos em negócio, incluindo um anúncio de contrato de locação de data center de longo prazo no site de Sandersville.

O desafio é o tempo. Diferente de minerar, infraestrutura de IA exige investimento grande antes de a receita crescer. A CleanSpark ainda precisa mostrar que seu portfólio de energia consegue gerar receita contratada com IA/HPC em nível que mude como o mercado precifica a empresa.

Iris Energy Limited

IREN é a que mais avançou na transição para IA, saindo da mineração de bitcoin para infraestrutura de “nuvem” de IA. A empresa investiu em capacidade de GPU (placas/processadores especializados, bons para IA) e assinou acordos de vários anos, incluindo uma parceria reportada ligada à demanda conectada à Microsoft via planos de expansão de data center. A empresa também elevou metas para IA, com planos de ampliar bastante sua frota de GPUs nos próximos anos.

A troca é clara: redirecionar capacidade que antes ia para mineração pode pressionar a receita no curto prazo até a renda com IA substituir esse dinheiro.

Riot Platforms

RIOT tem o argumento mais forte de infraestrutura. A empresa opera sites grandes no Texas, incluindo Rockdale e Corsicana, com alta capacidade de energia que pode ser reaproveitada para IA e HPC. A Riot diz que possui e gerencia 1,7 GW (gigawatt; 1 GW = 1.000 MW) de capacidade aprovada nas instalações no Texas, incluindo uma conexão de 700 MW em Rockdale.

A empresa também fechou seu primeiro grande cliente de data center com um contrato de locação com a AMD (fabricante de chips). O acordo cobre um início de 25 MW, prazo de 10 anos e receita contratada estimada em cerca de US$ 311 milhões. A AMD tem opções para ampliar o contrato para 200 MW de carga crítica de TI (energia dedicada a servidores que não podem parar).

O contrato reforça a tese de infraestrutura da Riot, mas a grande oportunidade depende de transformar mais do portfólio de energia em contratos longos com IA e HPC. Um aluguel prova que existe demanda. Escalar isso na capacidade disponível é o que pode mudar a avaliação da empresa.

MARA holdings

MARA é o caso mais complexo porque mistura três frentes: mineração de bitcoin, uma grande posição em bitcoin e a busca por oportunidades de infraestrutura além da mineração.

A empresa montou uma das maiores “tesourarias” de bitcoin entre mineradoras listadas (reserva de BTC no balanço), e essa posição virou parte relevante da tese junto com a mineração. Mas ter muito bitcoin não cria valor automaticamente para o acionista. O balanço pode oscilar bastante com o preço do bitcoin, e o capital levantado para expansão e investimentos também afeta a flexibilidade financeira.

A MARA também estudou oportunidades em IA e HPC, mas a transição está menos avançada do que a de empresas que já constroem infraestrutura dedicada. O mercado vai precisar ver sinais de que esses investimentos geram receita contratada, e não apenas mais uma possibilidade de crescimento.

Bitcoin disputa energia com a IA

A mudança para IA também importa para quem olha o bitcoin, não só as ações.

Cada megawatt que sai da mineração reduz o poder de computação que sustenta a rede. Se mineradoras suficientes redirecionarem capacidade, o crescimento do hashrate pode desacelerar, e quem ficar na mineração pode se beneficiar de menos concorrência.

Mas isso não acontece de imediato.

A segurança do bitcoin sempre dependeu da ideia de que minerar é o uso mais lucrativo da energia barata. Agora a IA também disputa essa energia, com mais dinheiro e contratos mais longos. Nada quebra amanhã. Mas se os melhores operadores de energia barata concluírem que o melhor cliente não é o Bitcoin, isso merece atenção.

O teste de correlação com o Bitcoin

Uma forma de avaliar a transição é ver o quanto as ações de mineradoras continuam andando junto com o bitcoin.

Uma relação forte sugere que o investidor ainda trata a empresa como um “espelho” do criptoativo. Uma relação mais fraca pode indicar que outro fator está puxando o preço, como expectativas de IA, ativos de infraestrutura ou notícias específicas da empresa.

Só a correlação (medida estatística de quanto duas séries se movem juntas) não prova mudança de negócio. Emissão de ações, apetite a risco no mercado e a volatilidade do bitcoin podem afetar essa relação. As evidências mais fortes continuam sendo:

  • contratos assinados
  • clientes identificados
  • planos de investimento divulgados
  • receita aparecendo nos resultados financeiros

Essas quatro empresas ainda podem carregar o mesmo rótulo, mas já não são negócios iguais. Algumas estão virando uma tese de infraestrutura de energia. Outras tentam montar um negócio de computação para IA. E outras seguem, principalmente, como mineradoras de bitcoin com planos para o futuro.

  1. Capacidade anunciada versus capacidade contratada – Megawatts sob contrato é número real. Megawatts “em negociação” não é. Quando uma empresa do tamanho do Google precisa dar garantia por trás do aluguel de um cliente de IA, como aconteceu com TeraWulf e Cipher, isso sugere que o crédito (capacidade de pagar) do cliente, sozinho, não bastava.
  2. Como a transição é financiada – Muita emissão de ações (diluição, que reduz a participação de quem já é acionista) ou dívida cara sinaliza que credores veem risco alto, antes mesmo de os resultados aparecerem.
  3. Se a correlação com o bitcoin muda – Uma mineradora que entra em IA pode, com o tempo, negociar de forma diferente do bitcoin, mas o humor do mercado cripto provavelmente ainda vai influenciar o papel por um período. Use esse sinal junto com os dois anteriores, não sozinho.

Para o investidor, a decisão já não é só se o bitcoin vai subir. É identificar qual modelo de negócio existe por trás do ticker.

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