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Oferta de aquisição do PayPal testa sua recuperação

by VT Markets
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Jul 21, 2026

O PayPal passou boa parte do último ano com cara de empresa em que o mercado tinha perdido a confiança. Isso mudou em 15 de julho, quando a ação disparou 17% após Stripe e Advent International apresentarem uma proposta de compra por US$ 60,50 por ação, avaliando o PayPal em mais de US$ 53 bilhões.

A oferta equivale a um prêmio de cerca de 28% sobre o último fechamento do papel (prêmio é pagar acima do preço de mercado para convencer acionistas a vender) e tem aproximadamente US$ 50 bilhões em financiamento bancário já comprometido (linhas de crédito prometidas por bancos para viabilizar a operação). A lógica é clara: a Stripe ganha uma marca forte para o público final, e o PayPal ganha uma possível entrada em um ecossistema maior de pagamentos digitais.

O ponto mais difícil é o preço. Se US$ 60,50 é um valor justo, ou se ainda há espaço para mais, depende dos próximos passos.

Nada está fechado. PayPal, Stripe e Advent não comentaram quando a proposta veio a público, e o PayPal ainda não respondeu à proposta. A oferta também acontece após uma abordagem privada feita em abril, o que indica que o tema já vem sendo discutido há meses.

A virada do PayPal sob nova liderança

A empresa trocou o CEO Alex Chriss após projeções fracas (guidance é a “orientação”, ou previsão, que a empresa dá ao mercado sobre resultados futuros). O executivo da HP Enrique Lores assumiu como presidente e CEO. Quem avalia a proposta agora não é o mesmo grupo que desenhou a estratégia que Wall Street passou a questionar.

Isso não significa que o PayPal vai aceitar. Um analista ouvido pela Reuters disse que o novo CEO pode considerar a proposta baixa.

“Não achamos que o novo CEO do PayPal vá aceitar o que pode ser visto como uma oferta muito baixa. Se a proposta atual for apenas o começo, a Stripe e a Advent podem chegar a US$ 70 por ação.” – Andrew Jeffrey, analista da William Blair

A troca de comando muda o ambiente de decisão, porque Lores não precisa defender um plano de recuperação que ele mesmo criou.

Por que a Stripe quer o PayPal

O interesse da Stripe tem um motivo simples: ela montou a estrutura para atender lojistas, mas não tem uma relação direta com o consumidor.

A Stripe processa pagamentos de milhares de empresas online, mas o cliente quase não vê o nome Stripe no momento de pagar.

PayPal e Venmo funcionam de outro jeito. São marcas voltadas ao consumidor, conhecidas e escolhidas na hora do pagamento.

Comprar o PayPal daria à Stripe os dois lados da transação:

StripePayPal
Infraestrutura de pagamento para lojistasRelação de pagamento com consumidores
Plataforma voltada para empresasCarteira digital e marca para o público
Tecnologia de checkout (etapa final do pagamento)Engajamento direto do usuário

A combinação permitiria que a Stripe deixasse de atuar “nos bastidores” e passasse a ter uma relação direta com o consumidor no pagamento.

Avanço da Stripe em pagamentos digitais

O interesse também se encaixa no plano da Stripe de ampliar sua estrutura de pagamentos digitais.

A Stripe já comprou a Bridge, que oferece infraestrutura de stablecoin para empresas (stablecoin é um tipo de criptomoeda atrelada a um valor estável, como o dólar), incluindo pagamentos internacionais e soluções de conformidade (compliance é seguir regras e exigências de órgãos reguladores). O que falta é uma rede grande voltada ao consumidor, para levar essas ferramentas ao público.

O PYUSD do PayPal ajuda a preencher essa lacuna. A empresa já criou uma stablecoin regulada para consumidores, com cerca de US$ 2,8 bilhões em circulação (circulação é o valor total emitido e em uso no mercado).

Unir a rede de lojistas da Stripe com a carteira digital do PayPal conectaria as duas pontas: empresas que precisam receber mais rápido (liquidação/settlement é o momento em que o dinheiro “cai” de fato) e usuários que já usam pagamentos digitais.

Controle da relação com o cliente

O maior ganho estratégico pode ser menos sobre cripto e mais sobre controlar a relação com o cliente.

A Stripe sempre operou por trás das empresas, processando pagamentos sem construir uma marca para o consumidor. Sua parceria com a Crypto.com, que permite ao Crypto.com Pay funcionar em lojas que usam Stripe, mostra uma tentativa de participar mais diretamente dos pagamentos do consumidor.

Mas parceria tem limite: a Stripe não “dona” o cliente. Ao comprar o PayPal, isso muda. Em vez de ajudar outra plataforma a chegar ao consumidor, a Stripe passaria a controlar a rede de pagamentos do consumidor.

A Advent torna essa estratégia possível.

Enquanto a Stripe traz o plano, a Advent aporta capacidade de financiamento e experiência de private equity (private equity é um fundo que compra participação em empresas, costuma impor mudanças e depois busca vender ou listar a companhia). O papel dela é ajudar a viabilizar uma operação desse tamanho e apoiar o PayPal numa transição, caso vire empresa fechada (fora da bolsa).

Essa combinação sustenta o desenho do negócio: a Stripe fica com a plataforma de pagamentos ao consumidor, e a Advent entra com capital e suporte operacional para reorganizar a empresa após a compra.

O que acontece agora com o PayPal

A oferta é só o começo. A expectativa é que o conselho do PayPal se reúna já em 20 de julho para discutir a proposta, mas isso não deve ser tratado como decisão final. Em ofertas não solicitadas (quando a empresa não pediu para ser comprada) desse porte, o primeiro passo costuma ser uma análise formal, com advogados e bancos envolvidos antes de qualquer negociação.

O preço pode não ser o final. Stripe e Advent poderiam subir para perto de US$ 70 por ação. Isso é especulação, mas números melhores podem reforçar a defesa por um valor maior.

O grupo comprador também parece mais complexo do que indicaram as primeiras manchetes. A Reuters falou em Stripe e Advent como compradores juntos, enquanto a CNBC informou depois que a Block pode entrar no grupo, com as três empresas colocando US$ 17 bilhões em capital próprio (equity é dinheiro dos sócios, não dívida).

Ou seja, a estrutura pode mudar e não ficar restrita a Stripe e Advent.

O teste do balanço

O PayPal também enfrenta outra conta do lado dos acionistas.

No mesmo mês, oito dias depois, sai o resultado do segundo trimestre em 28 de julho.

O balanço pode entrar no debate sobre aceitar a oferta ou exigir uma avaliação maior (valuation é o valor que o mercado atribui à empresa). Leia aqui sobre como o “Paradoxo dos Resultados” funciona.

  • Se o PayPal mostrar que a recuperação está andando: o conselho ganha argumento para dizer que a proposta subestima o negócio. A ação pode seguir em direção ao preço ofertado e até passar disso se o mercado apostar em um lance maior.
  • Se os números vierem fracos, os acionistas podem ver o prêmio como uma saída atraente, e parte da alta ligada a expectativas de compra pode desaparecer.

A ação ainda está mais de 81% abaixo dos picos da pandemia. Para parte dos investidores, um prêmio de 28% pode ser a chance de sair após anos de frustração, mesmo que a administração acredite que a empresa vale mais no futuro.

O PayPal informou 439 milhões de contas ativas no primeiro trimestre, alta de cerca de 1% em um ano. Mas só o número de contas não define valor.

MétricaDesempenho no 1º tri
ReceitaUS$ 8,35 bilhões
Crescimento da receita+7% na comparação anual
Volume de pagamentos~US$ 464 bilhões
Crescimento do volume+8% sem efeito do câmbio (currency neutral é medir sem variação cambial)
Redução de custos planejadaUS$ 1,5 bilhão em 2–3 anos

Um comprador não paga para “ter contas”. Paga por clientes que seguem usando o PayPal no checkout, geram volume de transações e continuam ativos apesar da concorrência de Apple Pay, cartões salvos e outras carteiras digitais.

É isso que o balanço de 28 de julho precisa esclarecer. A lógica estratégica está clara. O valor, não.

O que os traders acompanham

As próximas duas semanas devem definir o rumo do PayPal.

Os pontos principais para acompanhar:

  • crescimento do checkout com marca (branded checkout é quando o cliente escolhe pagar com PayPal, vendo a marca)
  • monetização do Venmo (monetização é aumentar receitas com taxas, serviços e produtos)
  • avanço na redução de custos
  • projeções da gestão para o restante do ano

O racional para a compra é direto. A Stripe quer o que o PayPal já tem: marca reconhecida para o consumidor, base grande de usuários e uma carteira digital consolidada.

A questão é se esses ativos valem mais dentro do ecossistema da Stripe do que como empresa independente.


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