
Em cada ciclo de DeFi (finanças descentralizadas, ou seja, serviços financeiros feitos em redes públicas sem bancos), volta a mesma questão: a infraestrutura descentralizada consegue ficar com uma parte relevante do valor criado ou a maior parte do benefício vai para outros?
O debate regressou em torno da 1inch depois de o token ter subido 20,8% nos últimos sete dias, apoiado por nova atenção à DeFi e pelo impulso do mercado cripto.
Este movimento não significa, contudo, uma mudança relevante na economia do token (a forma como o token cria procura, utilidade e, potencialmente, valor). O protocolo continua a ganhar peso como infraestrutura de negociação descentralizada, mas a ligação entre esse crescimento e o valor do token no longo prazo continua por esclarecer.
Um protocolo pode tornar-se mais útil sem, por isso, aumentar automaticamente o valor capturado pelos detentores do token.
Resolver o problema de liquidez na DeFi
Nos mercados financeiros tradicionais, intermediários ajudam a melhorar a execução: juntam liquidez (capacidade de comprar e vender sem mexer muito no preço), encaminham ordens e ajudam a encontrar preços mais eficientes. Nos mercados descentralizados o desafio é diferente. A liquidez está espalhada por várias bolsas cripto, pools (reservas de fundos para trocas) e redes, o que torna mais difícil executar transacções ao melhor preço.
A 1inch foi criada para resolver esta fragmentação. O protocolo agrega liquidez de várias bolsas descentralizadas e procura rotas de negociação mais eficientes, ajudando os utilizadores a fazer swaps (troca directa entre dois tokens) usando diferentes fontes de liquidez. Isto distingue a 1inch de uma bolsa tradicional: não tenta atrair traders com um único mercado. Funciona como infraestrutura, ligando utilizadores à liquidez já existente no ecossistema DeFi.
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De ferramentas de trading a infraestrutura DeFi
A 1inch começou como um agregador de bolsas descentralizadas, para encontrar as melhores rotas entre várias pools de negociação. Mais tarde, o ecossistema cresceu e passou a incluir produtos como o Fusion, que introduz outra forma de executar swaps, com resolvers (participantes profissionais que competem para garantir a execução das ordens) a disputarem o preenchimento.
Isto altera a forma como o protocolo é visto.
Uma aplicação de trading compete directamente por utilizadores. A infraestrutura ganha valor quando outros participantes passam a depender dela. O argumento de longo prazo para a 1inch é, por isso, menos sobre oscilações de curto prazo e mais sobre a capacidade de se tornar uma camada central de acesso à liquidez descentralizada.
A mudança de foco no mercado cripto
Em ciclos anteriores, o mercado cripto centrou-se muitas vezes em especulação, novos lançamentos de tokens e redes blockchain concorrentes. À medida que o sector amadurece, a atenção desloca-se para a infraestrutura que torna as aplicações descentralizadas mais fáceis de usar: liquidez, eficiência e acesso.
A próxima fase pode favorecer algo menos “chamativo”, mas mais sólido: facilidade de uso, eficiência e a base técnica que suporta tudo o resto. Se a adopção da DeFi continuar, ferramentas que melhorem a negociação em mercados fragmentados podem tornar-se mais importantes. Este é o argumento a favor de projectos focados em infraestrutura como a 1inch.
Ainda assim, utilidade e valor do token são temas diferentes.
O desafio de capturar valor
A 1inch resolve um problema real: melhor encaminhamento de liquidez e execução mais eficiente trazem vantagens claras para os utilizadores.
O problema é que mais utilização do protocolo não significa, por si só, valorização do token. Um protocolo pode crescer e o benefício económico para os detentores do token continuar incerto. Isto reflecte um dos grandes debates na DeFi: se ter um token de um protocolo deve significar ter direito ao valor criado pela rede.
Muitos protocolos ainda estão a definir como a utilização deve traduzir-se em valor do token. Alguns testaram partilha de receitas (distribuir parte das receitas pelos detentores), enquanto outros focam sobretudo governação, utilidade e participação no ecossistema.
Para investidores, isto implica avaliar não só se o protocolo resolve um problema, mas também de que forma o sucesso pode, no futuro, reflectir-se no token.
O que os detentores de 1inch realmente têm
A 1inch funciona hoje como token de governação e utilidade da 1inch Network. Os detentores podem participar na governação através de staking (bloquear tokens para apoiar o sistema e ganhar direitos/recompensas) e mecanismos de voto sobre decisões do protocolo.
Mas o token não funciona como uma acção. Ter 1INCH não dá propriedade sobre uma empresa nem um direito directo sobre os ganhos do protocolo.
O próximo capítulo da 1inch deverá depender mais de a adopção continuar do que de movimentos de preço de curto prazo.
Pontos a acompanhar:
- Actividade de negociação no protocolo: se os utilizadores continuam a depender da 1inch para encaminhamento de liquidez.
- Crescimento de utilizadores: se a adopção continua para lá de períodos de forte subida do mercado.
- Condições do mercado DeFi: se o sector cresce o suficiente para sustentar procura por infraestrutura.
- Pressão competitiva: se outros agregadores e plataformas conseguem desafiar a posição da 1inch.
- Futuras mudanças na economia do token: qualquer decisão de governação que crie uma ligação mais clara entre a actividade do protocolo e o valor para os detentores mudaria o tema de forma material.
A recente subida do preço da 1inch mostra maior interesse em infraestrutura DeFi, mas o tema vai além do gráfico. O protocolo responde a um problema concreto: melhorar o acesso a liquidez fragmentada em mercados descentralizados.
A questão em aberto é se esse sucesso se pode traduzir em mais valor económico para os detentores de 1inch. Por agora, o mercado acompanha duas histórias ligadas, mas diferentes: o crescimento do protocolo e o valor do token.
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