O Banco Industrial e Comercial da China vai suspender, a partir de 24 de julho, a negociação individual de metais preciosos indexados à Shanghai Gold Exchange, e o Postal Savings Bank of China, o Ping An Bank e o China Guangfa Bank emitiram avisos semelhantes relativos ao “paper gold” de retalho. Estes produtos são contratos de futuros que podem ser renovados (“rolled”) ou liquidados com entrega, mas a maioria das posições nunca resulta em transferência física de metal. O desfasamento daí resultante entre as posições em papel e o metal disponível tem alimentado o debate sobre se a formação de preços está a ser determinada em mercados com grande peso de derivados, em vez de refletir fluxos físicos.
Dados de negociação citados na análise do 1.º semestre do World Gold Council mostram que o ouro subiu 12,9% durante o horário asiático nos primeiros seis meses do ano, enquanto caiu 15% no horário norte-americano; as sessões europeias situaram-se entre ambos, com uma descida de 1,3%. Londres, Nova Iorque e a Suíça mantêm-se centrais na formação de preços, com o referencial spot ancorado nos fixings da manhã e da tarde da LBMA, mesmo sendo a Shanghai Gold Exchange o maior mercado spot físico e estando Hong Kong a implementar um novo sistema de compensação e liquidação. Os bancos chineses têm enquadrado este recuo como controlo de risco, em resposta a uma volatilidade mais elevada e à exposição de retalho alavancada.
Mudanças de Liquidez e Divergências de Spreads Este-Oeste
Hoje, com os principais bancos chineses a suspenderem oficialmente a negociação de “paper gold” de retalho, devemos preparar-nos para uma mudança significativa na liquidez global. Aconselhamos os traders de derivados a monitorizarem de perto o alargamento do spread entre os contratos em papel ocidentais e os preços spot físicos do Oriente nas próximas semanas. Esta alteração estrutural significa que a histórica dominância ocidental na formação de preços via papel enfrenta o seu desafio mais direto até à data.
Dados recentes mostram que o prémio da Shanghai Gold Exchange face aos preços spot de Londres tem frequentemente disparado, por vezes acima de 40 a 100 dólares por onça durante períodos de forte procura doméstica. Em paralelo, os bancos centrais globais mantiveram a sua tendência agressiva de compras de ouro, acrescentando mais de 1.000 toneladas por ano às reservas nos últimos anos, numa diversificação face ao dólar norte-americano. Acreditamos que esta migração, afastando-se da alavancagem de retalho na China, irá secar os volumes em papel na Ásia, forçando um modelo de preços mais realista, baseado na escassez física e não em contratos especulativos em papel.
Implicações para Traders de Derivados e para a Formação Global de Preços
Nas próximas semanas, recomendamos que os traders de derivados reduzam a alavancagem excessiva em plataformas dominadas por papel como a COMEX. Em alternativa, devemos concentrar-nos em estratégias com opções que cubram o risco de súbitos movimentos de volatilidade em alta, uma vez que a formação de preços no físico poderá desencadear “short squeezes” rápidos nos mercados em papel. Os traders devem também estar atentos a oportunidades de arbitragem, à medida que o poder de formação de preços migra progressivamente de Londres e Nova Iorque para Xangai.
Devemos igualmente esperar maior volatilidade intradiária durante o horário asiático, onde o ouro já tem superado de forma consistente as sessões ocidentais no último ano. A gestão defensiva dos requisitos de margem é crucial neste momento, à medida que o rácio tradicional papel-para-físico — historicamente estimado acima de 100 para 1 — começa a contrair. Não se trata apenas de uma alteração de política; é uma reestruturação fundamental da forma como os metais preciosos são valorizados a nível global.
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