
Sempre houve um motivo simples para comprar ações de uma empresa de mineração em vez de comprar bitcoin diretamente: os mineiros dão uma exposição “alavancada” à moeda. “Alavancada” significa que pequenos movimentos no preço do bitcoin podem gerar movimentos maiores nas ações. Isto acontece porque muitos custos são quase fixos, enquanto as receitas sobem e descem com o preço do bitcoin, aumentando as oscilações na cotação.
Era essa a ideia: bitcoin, com mais potencial de subida e mais risco.
Esta dinâmica está a mudar. O bitcoin continua a ser central, mas alguns mineiros estão a avaliar se o ativo mais valioso já não são as moedas que produzem, e sim a infraestrutura elétrica por trás do negócio.
Minerar ainda compensa. Mas há algo que pode pagar mais
O “hashprice” — quanto um mineiro ganha por cada unidade de “poder de computação” (capacidade de cálculo) — tem estado sob pressão desde o “halving” (evento em que a recompensa por bloco é reduzida a metade). A “hashrate” da rede (potência total de cálculo da rede Bitcoin) continua a subir, por isso cada máquina ganha uma parte menor. E a recompensa por bloco é agora metade do que era. Mesmo com eletricidade barata e boa gestão, as margens podem ser mais baixas do que há dois anos.
Ao mesmo tempo, empresas de inteligência artificial (IA) começaram a procurar eletricidade e pagam de outra forma. A mineração pode gerar, no melhor cenário, algumas centenas de milhares de dólares por megawatt por ano, com preços definidos pelo mercado e a mudar todos os dias. Alugar esse mesmo megawatt a um cliente de IA pode render um milhão de dólares por ano, ou mais, com preço fixo em contrato por dez anos ou mais.
Isto não é uma mudança de discurso. São contas simples. Se tem eletricidade disponível e alguém oferece três vezes mais num contrato de uma década, vai ouvir a proposta.
Porque é que a eletricidade passou a ser o ativo escasso
Aqui a situação fica menos simples — e muitos anúncios exageram o que está a acontecer.
Um local de mineração é, na prática, um armazém simples. As máquinas toleram energia instável, pouca redundância (sem sistemas de reserva), pó e calor até 45 graus, e podem ser desligadas em segundos quando a rede elétrica precisa da energia. Foi por isso que os mineiros conseguiram eletricidade barata: consumiam energia que outros não queriam.
A computação para IA não pode operar assim. Precisa de energia estável e backup, porque um treino de modelos que perde eletricidade pode desperdiçar dias de trabalho. Precisa de arrefecimento líquido (um sistema mais eficiente do que ventoinhas, que usa líquido para remover calor). E os clientes exigem garantias de disponibilidade (“uptime”, ou tempo em funcionamento) com penalizações financeiras.
Por isso, o armazém em si vale pouco. O que vale é a ligação à rede: a subestação, os cabos e o lugar na fila para obter ligação. Em muitos locais, essa fila demora anos. Ter um local já ligado e a consumir muita energia é o verdadeiro ativo escasso — e não se cria rapidamente.
Isto significa que converter um local de mineração é mais parecido com demolir e construir de novo. O custo por megawatt pode ser cerca de dez vezes superior ao do armazém original. É por isso que a mudança é real, mas demora anos, não trimestres.
Se ignorarmos o rótulo “mineiro de bitcoin”, há aqui três negócios diferentes.
- O “senhorio”. Constrói a estrutura e fornece energia; o cliente traz os seus próprios computadores. Recebe renda por 10 a 15 anos. Menos receita por megawatt do que na alternativa, mas com contrato e previsibilidade. É um negócio semelhante ao imobiliário e deve ser avaliado como tal.
- O operador. Compra os computadores e vende capacidade de computação à hora. Muito mais receita por megawatt e muito mais risco. Possui chips caros que desvalorizam depressa e precisa de os manter ocupados.
- Ainda um mineiro. Ganha dinheiro sobretudo com bitcoin. A IA é um plano, um estudo de local ou um primeiro contrato pequeno. O que está a vender aos acionistas é a possibilidade de evoluir para um dos dois modelos anteriores.
Os mineiros de bitcoin já não são uma única “aposta”
“Mineiro de bitcoin” passou a incluir modelos de negócio muito diferentes. Algumas empresas continuam a ser uma exposição alavancada ao bitcoin, enquanto outras usam os seus ativos de energia para oportunidades em infraestruturas para IA. Cada modelo tem um perfil de crescimento, necessidade de capital e lógica de avaliação diferentes.
| Empresa | O que os investidores estão a comprar | Evidência | O que tem de acontecer a seguir |
| IREN | Transição para infraestruturas de IA | Aumento de capacidade de GPU e ambições de “cloud” de IA | As receitas de IA têm de passar a ser relevantes |
| Riot | Ativos de energia e potencial futuro de centros de dados | Locais de grande escala e ligações à rede | Transformar a vantagem de infraestrutura em receita contratual |
| MARA | Exposição ao bitcoin com opção de IA | Grandes reservas de BTC e escala de mineração | Provar que parcerias em IA geram retorno |
| CleanSpark | Mineração eficiente de bitcoin | Boa execução operacional e eletricidade de baixo custo | Mostrar como os ativos existentes podem servir a procura de IA |
CleanSpark
CLSK tem sido um dos mineiros de bitcoin mais disciplinados, mas a estratégia de IA está a ganhar forma. A empresa tem aumentado o seu portefólio de energia e terrenos, preparando a infraestrutura para IA e computação de alto desempenho (HPC, “high-performance computing”, ou seja, computadores muito potentes usados em tarefas exigentes). A empresa destacou progressos em desenvolvimento de locais, arrendamentos e reforço de energia, incluindo capacidade adicional aprovada pela ERCOT e ativos preparados para IA/HPC. A ERCOT é a entidade que gere a rede elétrica do Texas.
A vantagem é semelhante à de outros mineiros que entram em infraestrutura: acesso a energia e locais que novos promotores de centros de dados demorariam anos a garantir. A CleanSpark também avançou para monetizar estes ativos, incluindo um anúncio de arrendamento de longo prazo de um centro de dados no local de Sandersville.
O desafio é o tempo. Ao contrário da mineração “pura”, a infraestrutura de IA exige investimento elevado antes de as receitas ganharem escala. A CleanSpark ainda precisa de provar que o seu portefólio de energia consegue gerar receitas contratuais de IA/HPC em montante suficiente para mudar a forma como o mercado avalia a empresa.
Iris Energy Limited
IREN é a que avançou mais na transição para IA, ao expandir-se da mineração de bitcoin para infraestrutura de “cloud” de IA (computação e armazenamento fornecidos via centros de dados). Investiu em capacidade de GPU (placas gráficas usadas para acelerar cálculos, muito procuradas em IA) e assinou acordos de vários anos, incluindo uma parceria reportada ligada a procura associada à Microsoft, no âmbito dos planos de expansão de centros de dados. A empresa também aumentou as metas de infraestrutura de IA, com planos para aumentar significativamente a frota de GPUs nos próximos anos.
A transição tem um custo: desviar capacidade da mineração de bitcoin pode pressionar as receitas de curto prazo da mineração antes de a receita ligada à IA a substituir totalmente.
Riot Platforms
RIOT tem o caso mais forte em infraestrutura. A empresa opera locais de grande escala no Texas, incluindo Rockdale e Corsicana, com elevada capacidade elétrica que pode ser reaproveitada para IA e HPC. A Riot detém e gere 1,7 GW de capacidade elétrica aprovada nas instalações do Texas, incluindo uma ligação à rede de 700 MW em Rockdale. “GW” (gigawatt) e “MW” (megawatt) são unidades de potência elétrica.
A empresa também garantiu o primeiro grande cliente de centro de dados através de um contrato de arrendamento com a AMD. O acordo cobre uma implementação inicial de 25 MW, com prazo de 10 anos e receita contratual estimada em cerca de 311 milhões de dólares. A AMD tem ainda opções para expandir o acordo até 200 MW de “carga crítica de TI”, isto é, a energia destinada aos equipamentos informáticos essenciais.
O contrato reforça a tese de infraestrutura da Riot, mas a oportunidade maior depende de converter mais do portefólio de energia em contratos de longo prazo para IA e HPC. Um arrendamento mostra procura. Escalar o modelo na capacidade disponível é o que pode alterar a avaliação em bolsa.
MARA holdings
MARA é o caso mais complexo porque junta três atividades: mineração de bitcoin, uma grande posição em bitcoin e a exploração de oportunidades de infraestrutura fora da mineração.
A empresa construiu uma das maiores reservas de bitcoin entre mineiros cotados, e essas reservas tornaram-se parte relevante da tese de investimento. Ainda assim, ter muitos bitcoins não cria, por si só, valor para o acionista. O balanço oscila com o preço do bitcoin, e o capital angariado para expansão e investimentos em infraestrutura também condiciona a flexibilidade financeira.
A MARA também avaliou oportunidades em IA e HPC, mas a mudança está menos avançada do que em empresas que já estão a construir infraestrutura dedicada. O mercado vai precisar de provas de que estes investimentos geram receita contratual, e não apenas mais uma possibilidade de crescimento.
O bitcoin está a competir com a IA pela eletricidade
A transição para IA também é relevante se olhar para a rede Bitcoin, e não apenas para as ações.
Cada megawatt retirado da mineração reduz a potência de computação que suporta a rede. Se um número suficiente de mineiros redirecionar capacidade, o crescimento da hashrate pode abrandar, e os mineiros que ficam podem beneficiar de menor concorrência.
Mas isto não é imediato.
A segurança do Bitcoin sempre assentou na ideia de que minerar é o uso mais rentável da eletricidade barata. A IA está agora a competir por essa eletricidade, com mais capital e contratos mais longos. Nada muda de um dia para o outro. Mas se os melhores operadores de energia barata concluírem que o melhor cliente não é o Bitcoin, isso merece atenção.
O teste da correlação com o Bitcoin
Uma forma de avaliar a transição é ver até que ponto as ações dos mineiros continuam a acompanhar o bitcoin.
Uma relação forte sugere que os investidores ainda tratam a empresa como um “proxy” de cripto, isto é, um substituto para se exporem ao bitcoin via bolsa. Uma relação mais fraca pode indicar que outros fatores estão a influenciar a avaliação, como expectativas de IA, ativos de infraestrutura ou eventos específicos da empresa.
A correlação, por si só, não prova uma mudança de negócio. Emissões de ações (aumento do número de ações, o que pode diluir os acionistas), sentimento global de risco e volatilidade do bitcoin podem influenciar a relação. A prova mais sólida é simples:
- contratos assinados
- clientes identificados
- planos de investimento divulgados
- receitas refletidas nas contas
Estas quatro empresas podem ter o mesmo rótulo, mas já não são negócios iguais. Algumas estão a tornar-se apostas em infraestrutura elétrica. Outras estão a construir negócios de computação para IA. Outras continuam sobretudo na mineração, com planos para o futuro.
- Capacidade anunciada vs. capacidade contratada — Megawatts com contrato é um número real; megawatts “em conversa” não é. Quando uma empresa grande como a Google tem de garantir, na prática, um contrato de arrendamento de um cliente de IA — como aconteceu com a TeraWulf e a Cipher — isso sugere que o crédito do cliente (a capacidade financeira para pagar) não era suficiente por si só.
- Como é financiada a transição — Diluição elevada (mais ações em circulação) ou dívida cara mostram como os financiadores avaliam o risco, antes de existirem resultados.
- Se a correlação com o bitcoin muda — Um mineiro que entra em IA pode, com o tempo, negociar de forma diferente do bitcoin, mas o sentimento cripto pode continuar a influenciar a ação durante algum tempo. Deve ser lido em conjunto com os outros dois pontos.
Para os investidores, a decisão já não é apenas se o bitcoin vai subir. É perceber que modelo de negócio está por trás do ticker.
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